<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316</id><updated>2011-04-21T15:26:51.099-07:00</updated><title type='text'>Blog de Bolso</title><subtitle type='html'>Literatice que não cabe no bolso não merece ocupar lugar na estante.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>20</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-4973077181658378512</id><published>2007-03-13T15:36:00.000-07:00</published><updated>2007-03-13T15:44:25.051-07:00</updated><title type='text'>AS HARPIAS TÊM SEDE</title><content type='html'>&lt;a href="http://farm1.static.flickr.com/132/420448222_df2e7e1397_m.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px;" src="http://farm1.static.flickr.com/132/420448222_df2e7e1397_m.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Foi o que ele me sussurrou; mas só para mim, após haver ditado as proverbiais últimas palavras – as que ficariam para a História –  na presença de quatro ou cinco. Adivinharia ele que eu teria a impressão de que o crepitar do fogo na lareira lembra asas de harpias luminescentes se debatendo, disputando qual fica por mais tempo prendendo nossos olhos – e, à medida que uma vence a outra, a derrotada definha e se recolhe como que fechando, desistindo e pousando; assim restará apenas uma harpia, esvoaçando seus membros azul-alaranjados e levando nossos olhos no vôo de vencedora, pois que neste momento nossa vista está absorta e entregue àquele crepitar? É, precisamos nos beliscar, nos estapear para que nossos olhos não sejam arrebatados pelo bater de asas, pois enquanto chama houver ficamos de olhar pregado, mesmerizados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"As harpias têm sede, Max", ele sussurrara, num meio sorriso – o mandrião, meio que prevendo que aquele seu "perfil soturno" é que passaria à posteridade; apenas eu saberia o quanto seu espírito brincalhão iria perdurar, mas tão somente em minha memória. "Queime tudo", ele sentenciara, na presença de quatro ou cinco, mas minutos depois decretara em meu ouvido que as harpias têm sede, quase sorrindo, matreiro. "Sede do quê, Franz?", eu poderia ter dito; não o fiz e agora hei de arcar com isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saberia ele de antemão que eu associaria o crepitar ao bater das asas da harpia? Já discutíramos sobre isso? Não me lembro. Os originais pousados em meu colo: o manjar a saciar a sede das harpias? Por um naco de tempo – meus olhos mesmerizados pelas labaredas –  supus serem  aqueles escritos o alimento a aplacar o apetite das bestas voadoras e já ia, mecanicamente, obedecendo à sua última vontade oficial, expressa na presença de quatro ou cinco; mas belisquei-me, estapeei-me, acordei: o seu meio sorriso, durante o sussurro. Se sede há, água nela, pois não? Peguei o jarro na mesa ao lado da poltrona e dei de beber às harpias: escuro, brasas, lareira esfumaçada e os escritos intactos em meu colo, eu aderindo àquele meio sorriso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pensar que aquele seu "perfil soturno" é que passaria à posteridade. Mal saberão eles. O mandrião.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-4973077181658378512?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/4973077181658378512/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=4973077181658378512&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/4973077181658378512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/4973077181658378512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2007/03/as-harpias-tm-sede.html' title='AS HARPIAS TÊM SEDE'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://farm1.static.flickr.com/132/420448222_df2e7e1397_t.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-116371086740108737</id><published>2006-11-16T13:00:00.000-08:00</published><updated>2006-11-17T09:50:15.913-08:00</updated><title type='text'>WEBCAM</title><content type='html'>Depois de um neurótico regime, deu na telha de Lídia irradiar suas horas íntimas para o mundo. Instalou uma webcam e assim era mostrada se despindo, deitada de lado só de calcinha e miniblusa um pouco apertada, se preparando para o banho, saindo do banho, falando ao telefone com as pernas escoradas na janela, experimentando e desexperimentando meias sete-oitavos. Em seu site, os comentários de sempre. Até que um dia um internauta identificado como “Asbesto” disse que ela tinha “ombros baudelairianos”, recomendando a leitura de &lt;em&gt;Meu Coração Desnudado&lt;/em&gt;. Desnorteada menos pela citação do diário do autor francês do que pela referência específica à sua anatomia (“Gente, minha anca tá tão bem. E meu peito? E a barriga malhada?”), Lídia comprou o livro e começou a procurar a referência ao tal ombro. De alguma amante do escritor? Erotismo platônico? &lt;em&gt;Coração Desnudado&lt;/em&gt; seria uma perniciosa metáfora para a ostentação de sua privacidade? O tal “Asbesto” nunca mais voltou ao site para explicar se a tal citação tinha sido ou não um elogio. Lídia passou a ser vista pela webcam agora só debruçada sobre (e cercada por) diferentes edições do livro de Baudelaire. Aprendendo francês para desencavar a provocação no original. E a boca deixando pender, como um débil fio de saliva, murmúrios como “Pour quoi les épaules? Seulement les épaules?” Perdeu mais peso ainda, foi convidada para top model por um olheiro web e hoje desfila em Paris. Fez só uma exigência – que os modelitos que veste jamais, nunca, de modo algum deixem seus ombros à mostra. Vai saber.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-116371086740108737?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/116371086740108737/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=116371086740108737&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/116371086740108737'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/116371086740108737'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/11/webcam.html' title='WEBCAM'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115979707485160232</id><published>2006-10-02T06:40:00.000-07:00</published><updated>2006-10-02T06:51:14.873-07:00</updated><title type='text'>MEMÓRIA</title><content type='html'>Menotti acordou de ressaca com o telefonema de DelVecchio. Ele tinha elaborado melhor a teoria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Que teoria? – perguntou Menotti, voz arranhando.&lt;br /&gt;- A de ontem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menotti esfregou os olhos. A metade esquerda da cabeça doía até a nuca. &lt;br /&gt;- Eu elaborei alguma teoria, ontem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DelVecchio, após gemer o preguiçoso "nhééém" de censura:&lt;br /&gt;- Não é possível que tenhas bebido tanto assim. O que fizeste de tua memória, irmãozinho?&lt;br /&gt;- O que eu fiz com minha memória?&lt;br /&gt;- É!&lt;br /&gt;- Não: eu estou perguntando. O que eu fiz com minha memória?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais grunhido. Mais preguiça. E DelVechhio:&lt;br /&gt;- Ontem, após a palestra, fomos tomar uísque na casa do reitor. Depois do quinto Buchannan´s, disseste estar elaborando uma hipotética historiografia. Lembras? &lt;em&gt;What if.&lt;/em&gt; &lt;em&gt;What if!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;What if&lt;/em&gt;. Continua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grunhido.&lt;br /&gt;- Irmãozinho, o que fizeste de tua memória? Teorizaste sobre o que teria ocorrido à humanidade se Constantino não houvesse aderido ao Cristianismo e tornado a religião oficial em todo o Império. Disseste haver levantado suposições sobre a evolução do processo histórico a partir daí. Como teria se portado o Império Romano? E o Cristianismo hoje, que configuração teria?&lt;br /&gt;- O que mais?&lt;br /&gt;- O que mais, irmãozinho? Todo mundo formou uma roda em torno de ti. E tu dizendo que tinhas dados sólidos para estabelecer o aspecto do mundo hoje sem os valores do Cristianismo. Todos ficaram interessadíssimos. Disseste então que irias me passar tudo assim que chegássemos em tua casa, pois estavas sem condições de dirigir. Só que apagaste no caminho. Te deixei aí e vim embora. E agora? Amanhã, na faculdade, todo o corpo docente vai me perguntar – e o que eu digo? Fico com cara de pateta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é possível, pensou Menotti. Lembrava-se da festa, até de flashes dele pegando carona com DelVecchio, mas nada além disso. Nada. Ou será – aliás, bem provável – que era um trote? Uma vez, alunos ainda, Menotti ridicularizou em público o hábito de DelVecchio usar vocabulário rococó apenas para impressionar as moças, e DelVecchio jurou que uma dia lhe pregaria uma peça “nos moldes que você aprecia: com a devida solércia. Com a devida solércia!”. Mas fazia tanto, tanto tempo, isso. Não é possível que a memória de DelVecchio fosse prodigiosa a esse ponto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a dele, Menotti – o que ele tinha feito da memória dele?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115979707485160232?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115979707485160232/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115979707485160232&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115979707485160232'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115979707485160232'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/10/memria.html' title='MEMÓRIA'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115720351130944429</id><published>2006-09-02T06:12:00.000-07:00</published><updated>2006-09-02T06:41:27.750-07:00</updated><title type='text'>ESTILOSA HISTORIETA PRÉ-SUFRAGISTA COM TRÊS FINAIS</title><content type='html'>O ilibado comendador é flagrado pela amantíssima esposa em solta e jovial troca de afagos e fluidos, na cama, com uma serviçal. A mulher quase despenca pelas escadas rumo à sala de estar e afoga nas almofadas verdes do sofá os rubros e tenros cachos, que se ondeiam entre um e outro esticado suspiro feito um revolto oceano de desilusão. Quinze minutos depois desce o desembargador, acendendo um charuto - a fisionomia renitentemente austera - e senta-se cruzando as pernas, na poltrona ao lado. Só a segunda baforada vem acompanhada da fala solene e compassada dele:&lt;br /&gt;-Manchei o nome de nossa família. Conspurquei a honra que sempre pautou nossas relações. Converti-me em pária. A senhora goza de todo o direito de nunca mais perdoar-me e deixar esta chaga viva, pulsando túrgida no seio de nossa família. A menos que, em nome do bem viver, resolva perdoar-me e esquecer tudo. E então? Esquece?&lt;br /&gt;Perserveram os soluços da esposa. O charuto acaba se apagando sozinho e o comendador eleva, tonitruante, o tom de voz:&lt;br /&gt;-ENTÃO? ESQUECE?!?&lt;br /&gt;A mulher:&lt;br /&gt;a) Toma um susto, ergue mecanicamente a cabeça, chia um trêmulo "S-s-s-sim..." e o comendador, reacendendo o teimoso charuto: "Pois não se fala mais nisso."&lt;br /&gt;b) Toma um minúsculo susto - as costas se arqueiam - mas mantém a cabeça afundada nas almofadas ainda mais alguns segundos para então erguê-la, fazendo reluzir os olhos vermelhos porém altivos, emoldurados pelos garbosos cílios molhados: "Jamais hei de perdoá-lo, senhor, tamanha a afronta a que fui submetida. Aliás, senhor até agora. A partir de hoje, Zequinha." E o comendador, reacendendo o teimoso charuto: "Aprenda pois a viver com as mesmas posses de que usufruía quando a tirei do casebre do senhor vosso pai." Ela discretamente enxuga o nariz e pensa um pouco.&lt;br /&gt;c) Ela mantém a cabeça abaixada, continua a soluçar e não responde. O comendador reacende o charuto e repete a pergunta duas, três, cinco vezes; então impacienta-se e, puxando-lhe os rubros e tenros cachos, ergue-lhe a cabeça para perceber que os abafados soluços não passam de uma engasgada gargalhada. Ela, recuperando o fôlego mas sendo atropelada pelo próprio riso: "Foi a primeira vez que vi o dito cujo à luz do dia! Como é pequenininho!" Aqui o advogado do comendador terá depois um certo trabalho para obter a absolvição, a despeito de ainda estarmos em meados dos anos 10.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115720351130944429?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115720351130944429/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115720351130944429&amp;isPopup=true' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115720351130944429'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115720351130944429'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/09/estilosa-historieta-pr-sufragista-com.html' title='ESTILOSA HISTORIETA PRÉ-SUFRAGISTA COM TRÊS FINAIS'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115685866000181839</id><published>2006-08-29T06:35:00.000-07:00</published><updated>2006-08-29T06:37:40.013-07:00</updated><title type='text'>VERNÁCULO</title><content type='html'>O consultor de vendas e cronista bissexto Dirceu elaborou um termo interessante para o ato sexual: “amoitar o mandruvá”. Encantado com a concisão e a eufonia do arranjo gramatical, correu ao telefone e ligou para o responsável pelo espólio de Luís da Câmara Cascudo para saber se o termo poderia ser incluído na lista de expressões chulas do vernáculo. De lá se manifestaram de forma fria: “Tem de ser consagrado pelo uso”. Dirceu, decepcionado, pensou em vender seu Gol 1.6 para tentar subornar o responsável pelo espólio, e quando o comprador apareceu para avaliar o veículo, Dirceu tentou, com um risinho abafado: “Se a suspensão não estiver nos trinques é porque já fiz muita sacanagem no banco de trás, viu. Até amoitar o mandruvá eu já amoitei.” O comprador ficou meio assim, foi embora e Dirceu, desapontado, suspeitou que talvez tivesse se superestimado. O jeitão esquisito do freguês o fez pensar: “Esse aí deve chorar no marmelo”. Atiçado, correu ao telefone.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115685866000181839?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115685866000181839/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115685866000181839&amp;isPopup=true' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115685866000181839'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115685866000181839'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/08/vernculo.html' title='VERNÁCULO'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115625421221083414</id><published>2006-08-22T06:41:00.000-07:00</published><updated>2006-08-23T05:20:25.360-07:00</updated><title type='text'>SOLIPSISMO</title><content type='html'>Depois de me debruçar em estudos diuturnos sobre o solipsismo, fui levado a descobrir que no mundo só existo eu, o Autor: o ambiente, os territórios e o cosmo que me rodeiam não passam de um caprichoso e natural transbordamento de minha personalidade. Inclusive você, provável e almejado leitor. Não repare se eu disser que te inventei: você só é porque me lê. Não houve nenhum antes em sua vida antes desta leitura, assim como pode ir esquecendo o depois. Evidentemente você não vai se lembrar de haver desistido da leitura porque quem deixa de ser, salvo engano, não se lembra. Se eu fosse você não pararia de me ler pelo resto da vida; após o “mais” voltaria ao começo, ao “Depois” – bom, você pegou a idéia. Mas isso, claro, também é uma ilusão que nem vou insistir em te incutir. Ilusões são analgésicos com prazo de validade já vencido. O mundo é projeção minha, o solipsismo me deu uma razão de viver. Meu psiquiatra comentou ontem que surtei após ler tanto sobre o assunto, mas a psiquiatria é uma invenção que preciso aperfeiçoar um pouco mais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115625421221083414?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115625421221083414/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115625421221083414&amp;isPopup=true' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115625421221083414'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115625421221083414'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/08/solipsismo.html' title='SOLIPSISMO'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115582430493902531</id><published>2006-08-17T06:56:00.000-07:00</published><updated>2006-08-19T12:14:23.220-07:00</updated><title type='text'>NOITE DE AUTÓGRAFOS</title><content type='html'>Logo na noite de autógrafos! Uísque comendo solto (“bebendo solto!”, berra o palhaço de plantão das noites de autógrafo), salgadinhos à farta (o palhaço ia gritar “à falta” por ter chegado tarde mas recolhe-se, convencido por uns olhares enviesados de “certo, chega”), mulheres maravilhosas e ela, ela – a fila. Grande. Logo naquela noite, naquela fila. O próximo a receber o autógrafo, o ruivo encarapinhado de sobretudo, curva-se até o ouvido do autor, atira o volume em seu colo, xinga algo inaudível. “Hã?”, diz o autor, e o encarapinhado repete alto. Agora audível, mas ininteligível. Porém xingamento, certamente. Língua estranha. Gutural. O ruivo já alterado, falando – berrando, urrando, uivando: que diabo de língua é essa? – e os seguranças se aproximam. O que foi isso? Uma cusparada, na gravata no autor! O agente literário o puxa a um canto, os seguranças arrastam o ruivo encarapinhado para fora, a fila resta sinuosa e falha como um ajuntamento de formigas bêbadas – o uísque comendo solto, é bom lembrar. A festa esfria. Amanhã o noticiário virá com o alerta nas chamadas: “Destacamento angelical quase acaba com noite de autógrafos”.&lt;br /&gt;Não espere, leitor – adiantamos em primeira mão: o autor, consagrado por best-sellers de aconselhamento pessoal, autografava seu último lançamento, &lt;em&gt;O Anjo Que Existe em Você&lt;/em&gt;, ou algo assim. Consta que Misael, o ente etéreo atuante na área da literatura, espezinhado por tanta permissividade mercenária, resolveu pegar o autor para Cristo e desceu com um destacamento para vir tomar satisfações. Rodou a baiana em – óbvio – aramaico talmúdico. O resto dos seres angelicais assistiu do lado de fora à confusão, e ainda deu uma corrida no Autor quando ele saiu. Grande susto.&lt;br /&gt;O palhaço de plantão se arrependerá por não ter podido dizer na hora “Esses caras caíram do céu”; se bem que só a perspectiva de que alguém na festa imaginaria que ele fizesse isso já o tranqüiliza.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115582430493902531?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115582430493902531/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115582430493902531&amp;isPopup=true' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115582430493902531'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115582430493902531'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/08/noite-de-autgrafos.html' title='NOITE DE AUTÓGRAFOS'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115498567846834438</id><published>2006-08-07T14:20:00.000-07:00</published><updated>2006-08-11T15:06:42.550-07:00</updated><title type='text'>ULTRAJE À ARTE</title><content type='html'>Ao ver, no MASP, o &lt;i&gt;Retrato do Conde-Duque de Olivares&lt;/i&gt;, de Velásquez, Vilmar sacou da tesourinha de unha e recortou um quadradinho da tela, justamente o que retratava o dedo mindinho do conde – na concepção de Vilmar, o ápice do detalhismo figurativista, já que a textura fosca da unha superava qualquer registro fotográfico –, pôs no bolso e saiu. O leitor aí ávido por verossimilhança vai querer saber como Vilmar conseguiu, dada a vigilância altamente profissional e tecnológica presente numa exposição deste porte. Já te satisfaço, espectador exigente: a mini-câmera flagrou tudo e Vilmar foi preso na saída. Só que aí se estabeleceu uma insólita figura jurídica: roubar pedacinho de obra de arte – à parte a dilapidação do patrimônio – configura atentado ao acervo histórico, passível de penalização como se se tratasse do roubo da obra inteira? Foi isso que o advogado de Vilmar alegou, e, trezentos anos antes, ao terminar o quadro, Velásquez caprichou um pouco mais no mindinho do conde-duque por puro sarcasmo estético: o membro houvera, muito antes, sido amputado numa briga de navalha numa taberna madrilenha. Por conta de mulher e vinho vagabundo. Ou o contrário.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115498567846834438?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115498567846834438/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115498567846834438&amp;isPopup=true' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115498567846834438'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115498567846834438'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/08/ultraje-arte.html' title='ULTRAJE À ARTE'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115391856042638422</id><published>2006-07-26T05:55:00.000-07:00</published><updated>2006-08-09T05:54:49.303-07:00</updated><title type='text'>GOIABA EM CALDA</title><content type='html'>Altamiro, nascido em Rondonópolis, chegou a funcionário da NASA. Departamento de Rastreamento Molecular dos Corpos Celestes, para orgulho da vó Nitinha, que até hoje envia a insuperável goiaba em calda à sede da instituição, no Texas. O problema é que Altamiro, workaholic, descobriu que a fusão nuclear do hidrogênio do Sol, o principal combustível do astro e previsto para acabar daqui a cinco bilhões de anos, só tem gás para mais cinqüenta anos. Perguntando com muito jeitinho ao chefe do departamento o porquê da malversação da informação, Altamiro ouviu o clichê de filme B: “Evitar o pânico da população”. Indignado, Altamiro preparou um dossiê completo sobre a situação do astro-rei e o iminente colapso do sistema solar, para distribuir às autoridades constituídas e à imprensa (“brasileira, que seja”). “Vão querer me matar, mas vale a causa”, disse ele aos botões de seu jaleco. Mas quando chegou o pote mensal de goiaba em calda e Altamiro o ergueu para observá-lo à contraluz, as belíssimas fatias transparentemente incandescidas pelo brilho do condenado sol, ele conjeturou com rigor de cientista e alma de &lt;em&gt;gourmand&lt;/em&gt;: “Espera aí. Tem prioridade o que for acabar primeiro”. Neste momento ele observa o dossiê ser fatiado pelo triturador de papel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115391856042638422?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115391856042638422/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115391856042638422&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115391856042638422'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115391856042638422'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/07/goiaba-em-calda.html' title='GOIABA EM CALDA'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115279771693384977</id><published>2006-07-13T06:34:00.000-07:00</published><updated>2006-07-13T06:35:16.943-07:00</updated><title type='text'>CRIOGENIA</title><content type='html'>Vai ver que por se cansar de ouvir sobre os recentes escândalos,  Ademar M. vendeu o que tinha e criogenou-se por quinhentos anos – mas  antes de ser desacordado escreveu para si mesmo um bilhete: “Depois que acordar, esperar anoitecer. Olhar pela clarabóia da câmara de criogenia. Lembrar que a luz das estrelas mais próximas leva quinhentos anos para chegar à Terra. Verificar que aí haverá uma peculiaridade do eixo dos tempos, onde estarei juntando passado e presente: verei as estrelas que existiram no tempo em que eu vivia. Terei com certeza a alma percorrida por”, e aqui ele pensou um pouco, “um frêmito de emoção incontrolável.” Quando Ademar M. acordou ainda levou algum tempo para dar conta de si, dadas as condições fisiológicas de quem passa pela experiência. Viu que tinha um bilhete dentro do bolso, abriu e leu. Esperou anoitecer, olhou a clarabóia e foi percorrido por um frêmito de emoção incontrolável. Ademar M. não sabia que a máquina tinha pifado e ele acordara apenas seis horas depois. Não sabia também que a luz das estrelas mais próximas não leva quinhentos anos para chegar à Terra. E não supunha que frêmito de emoção incontrolável é lugar-comum dos mais abjetos. Mas, ora bolas, tudo na vida é ficção científica e poesia amadora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115279771693384977?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115279771693384977/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115279771693384977&amp;isPopup=true' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115279771693384977'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115279771693384977'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/07/criogenia.html' title='CRIOGENIA'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115227976394925593</id><published>2006-07-07T06:41:00.000-07:00</published><updated>2006-07-13T06:08:19.946-07:00</updated><title type='text'>FACULDADE DE LETRAS</title><content type='html'>“O mundo não é o fim do mundo”, sussurrou Márcio a Tina, sua colega na faculdade de Letras, sentada na carteira ao lado, que soluçava fino de doer o ouvido, por conta – provavelmente – de afeto escorraçado. Márcio intercedeu com a frase que ele considerou um achado. Idealizou que, impressionada, ela ao menos ouviria o que ele teria a dizer de resto. Ela suspirou como se puxasse de volta o choro, mostrou outono nos olhos, inverno no sorriso azul e algum brilho equinocial na alma, por trás do suspiro. Olhou então ao redor, a cabeça levemente erguida, quase flanando, o rosto já secando e irradiando agrado. Márcio, indignado pelo autor ter roubado a cena com “outono nos olhos, inverno no sorriso azul e algum brilho equinocial na alma, por trás do suspiro”, engoliu “o mundo não é o fim do mundo” e esqueceu Tina, voltando a atenção à aula que versava sobre Literatura Comparada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115227976394925593?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115227976394925593/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115227976394925593&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115227976394925593'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115227976394925593'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/07/faculdade-de-letras.html' title='FACULDADE DE LETRAS'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115213755191899815</id><published>2006-07-05T15:10:00.000-07:00</published><updated>2006-07-05T15:12:31.926-07:00</updated><title type='text'>CONCLUSÃO</title><content type='html'>“O problema é quando a gente passa a tratar as conclusões como se fossem filhos da gente – filho único. Não pode. Conclusão foi feita para ser testada a cada momento, deixada sozinha para ver se sobrevive: levar porrada. E, às vezes, abandonada. Conclusão a gente visita de vez em quando, para ver se ela cresceu e se acostumou à ausência da gente. Se adquiriu compostura para se bastar a si própria. O grande problema de quem conclui é o brilhinho no olhar – começar a doutrinar os outros, ao invés de só dizer. Conclusão não pode ser mimada, senão estraga. Conclusões mimadas são a doença do zeitgeist. Noventa e oito ponto sete de nós não sabe – ou é sabemos? – cuidar de uma conclusão, só uma minoria exerce o distanciamento emocional correto diante das próprias conclusões. Enfim, eu acho que o que caracteriza melhor isso é –  Peraí.”&lt;br /&gt;Bira sai da rodinha do coquetel e vai ao banheiro. Giulia aposta com Letícia que ao voltar ele entra em outro assunto. “Ele nunca prossegue no que fala. É incapaz de chegar a uma conclusão”, ela sentencia. Letícia diz que duvida e Giulia ri por dentro, concluindo que isso ao menos a redimirá da aposta que perdeu há cinco minutos, sobre se Bira armaria ou não um incandescente discurso sobre conclusões.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115213755191899815?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115213755191899815/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115213755191899815&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115213755191899815'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115213755191899815'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/07/concluso.html' title='CONCLUSÃO'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115169075521172237</id><published>2006-06-30T11:01:00.000-07:00</published><updated>2006-06-30T11:06:31.950-07:00</updated><title type='text'>MORGUE</title><content type='html'>(Trecho gravado durante a dissecação do cadáver de um pequeno empresário assassinado por ajuste de contas [e isso nem vem ao caso do contículo], reproduzindo a conversa de dois legistas cujos nomes se perderam no embotamento das premências policiais cotidianas)&lt;br /&gt;– Está sentindo? Pega aqui e sente.&lt;br /&gt;– Mas é um órgão morto. Um coração inativo.&lt;br /&gt;– Mas ainda assim. Pega aqui. Aperta e sente os aurículos, assim, e os ventrículos inchando feito papo quando a gente espreme. Texto é isso.&lt;br /&gt;– (Pausa) Como?&lt;br /&gt;– Texto é isso. Ele tem de ter o mesmo ritmo da batida do coração, que é a noção de &lt;em&gt;timing&lt;/em&gt; mais primeva e mais presente. Olha aí: pof. Paf.&lt;br /&gt;– (Pausa) Tem a ver com aquele papo de anteontem? De que você queria ter feito Letras ao invés de Medicina? Ou você nem lembra, de tanto que bebeu?&lt;br /&gt;– Desde os primeiros arranjos fonéticos. As primeiras noções de acordes musicais. O intervalo entre as pinceladas rupestres que estabeleceram os códigos visuais. O pentâmetro iâmbico de Shakespeare – tum, tum, tum, tum, tum. Põe aqui tua mão em cima da minha e sente esse coração.&lt;br /&gt;– Escuta. (Pausa) Esse coração – está se mexendo.&lt;br /&gt;– (Pausa)&lt;br /&gt;– Eu estou vendo ele se mexer. Este sujeito está morto. O tórax aberto. Mas este coração que você estava apertando há cinco segundos... está se mexendo sozinho.&lt;br /&gt;– (Pausa) Então, ué. Texto é isso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115169075521172237?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115169075521172237/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115169075521172237&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115169075521172237'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115169075521172237'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/06/morgue.html' title='MORGUE'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115150658792546810</id><published>2006-06-28T07:51:00.000-07:00</published><updated>2006-06-28T13:55:20.226-07:00</updated><title type='text'>TRAVESSÕES</title><content type='html'>Quando leu que a escritora Oriana Falacci tinha implicado com a tradução brasileira que reformatou os diálogos de um livro dela - expressos originalmente entre aspas - para falas com travessões, Edgar achou que fosse ficar louco. Vivenciador literário incorrigível, perdia o sono pensando “O que eu falo se estabelece por aspas, no estilo anglo-saxão, ou na forma latina de travessões? Hem? Hem? Hem?” A mulher o largou, a filha o visita uma vez por semana e o psiquiatra recomendou um sedativo tarja preta para induzir o sono. “Os sonhos vêm às vezes em viés expressionista, às vezes em ritmo de nouvelle vague – e isso já o distrai o suficiente para que se preocupe com estilos de diálogo”, garante o médico.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115150658792546810?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115150658792546810/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115150658792546810&amp;isPopup=true' title='10 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115150658792546810'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115150658792546810'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/06/travesses.html' title='TRAVESSÕES'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115108421023427698</id><published>2006-06-23T10:36:00.000-07:00</published><updated>2006-06-23T10:36:50.246-07:00</updated><title type='text'>EMPREGO</title><content type='html'>Não gosto de literatura, odeio escrever, nunca vou ao cinema -- não sei como tudo isso se juntou. No começo de 82 fui fazer uns biscates em Buenos Aires e li nos classificados que procuravam alguém para auxiliar um velho. Achei gozado o que pediam no anúncio: "Dá-se preferência a quem não goste de filmes." Fui ver. Parece que em Buenos Aires são poucos os que não apreciam perder tempo no escuro do cinema. Cheguei lá; a mulher dele -- que no começo pensei ser a secretária -- , uma japonesa, me recebeu. Fui levado à sala dele. Idoso mesmo, uns oitenta e tantos, por aí. E cego. Achei gozado um cego numa sala cheia de livros. A japonesa confirmou meu desapego pelo cinema ("Desprezo", insisti) e me explicou: eu iria receber para ler livros técnicos sobre os fundamentos do cinema -- enquadramento, planos, fotografia. Depois de aprender o necessário, iria acompanhar o velho a uma antiga sala de cinema no bairro de Palermo. Minha tarefa era, portanto, ir descrevendo as fitas para ele, utilizando os jargões que guardaria do aprendizado. No começo foi complicado, mas logo me acostumei. "Travelling até uma casa amarela", eu dizia. "Corta para plano médio de uma moça de olhos grandes, grandes e cor de caramelo fervido. Fade." E o velho de olhar grudado na tela, como se enxergasse. Pareciam até brilhar, aqueles globos brancos. Lembro que o único atrito aconteceu na vez em que acabei me entusiasmando com uma cena e fiz sem querer um comentário sobre o cenário -- então o velho me cortou, a voz mais rouca do que de costume: "Quero seus olhos. Não sua opinião." No mais, tudo correu na mais perfeita normalidade. Depois o estado de saúde dele foi piorando, as sessões acabaram e em quatro ou cinco semanas eu deixava Buenos Aires, com um bom dinheiro no bolso. Meses depois recebi um bilhete da japonesa, dizendo que ele havia morrido e deixado uma carta de agradecimento para mim -- que seguia em anexo. Mas era uma longa carta, e eu já disse que não tenho paciência para isso de literatura. Joguei a carta fora sem ler e segui minha vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115108421023427698?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115108421023427698/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115108421023427698&amp;isPopup=true' title='9 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115108421023427698'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115108421023427698'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/06/emprego.html' title='EMPREGO'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115097534359816504</id><published>2006-06-22T04:21:00.000-07:00</published><updated>2006-06-28T13:15:20.710-07:00</updated><title type='text'>AMOROSO CONTÍCULO DE TERROR</title><content type='html'>Eis portanto o ainda tão belo rosto de Marcela com as lisas feições coaguladas e emolduradas pelas vivíssimas flores na borda do caixão. Como eu adoraria despejar tudo agora, agora, e que daqueles traços embaçados renascessem aqui e ali filetinhos de sombra, ensaios de espasmos ou mesmo tonalidades de cor, angústia e desejo de vingança; como me deliciaria ser o primeiro a perceber alguma forma de vida se espreguiçando para acordar encolerizada nesta fisionomia irritantemente sossegada, a partir de minha revelação: óbvio que te traí, meu amor. Te traí com todas as letras e todas as tuas amigas, te enganei tantas vezes quantas me permiti deixar a consciência guardada na gaveta do criado-mudo e sair à noite para meus, abre aspas, plantões. Não deu tempo de eu te ver me vendo tirar acintosamente a máscara de cirurgião tão apegado ao juramento de Hipócrates e pronto a correr aos leitos de hospital, a qualquer hora da madrugada, para acordar nas camas de Lenora, Helena, quem fosse. Meu sonho era ver teus sossegados olhos se abrindo de supetão e ah, finalmente dando acolhida ao maravilhoso brilho do rancor, presos ao meu olhar tão despudoradamente confessional, ao meu rosto sóbrio não mais te mentindo – mas pronunciando devagar e sereno as pontiagudas sílabas feito inesperada admissão no tribunal de júri, de deixar juiz e advogado tontos: te traí, meu amor, tantas vezes e não, jamais eu perderia a conta. Foram cento e noventa e duas, sem contar as três que – o que vejo? O que vejo, por deus, senão um filete de sombra, um pequeno espasmo no canto da boca de Marcela? Um projeto de sorriso que já estaria lá e eu não havia ainda me dado conta? Assim como os olhos, que me guardavam desde sempre por baixo das pálpebras tão fingidamente assentadas? Quem finge o quê, aqui? Tento avaliar melhor o traço giocondo no canto daqueles lábios mas não consigo; a última coisa que vejo é Marcela esticando as sossegadas mãos para fechar a tampa do meu caixão. Tudo escuro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115097534359816504?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115097534359816504/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115097534359816504&amp;isPopup=true' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115097534359816504'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115097534359816504'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/06/amoroso-contculo-de-terror.html' title='AMOROSO CONTÍCULO DE TERROR'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115083388603442301</id><published>2006-06-20T13:03:00.000-07:00</published><updated>2006-06-28T13:19:15.493-07:00</updated><title type='text'>CHUMBO DERRETIDO</title><content type='html'>“Olha aqui”, diz a coordenadora Lucília, ao pôr a mão do mestrando Emerson – que defende uma tese sobre Dostoievski – sobre seu colo firme, macio: “Chumbo derretido. A melhor expressão do ódio”. Ele olha como quem consente, e ela: “É isso que eu sinto, desde a primeira vez em que li.”&lt;br /&gt;Ela se refere ao prefácio que Otto Maria Carpeaux fez para Os Irmãos Karamázov, entregando de supetão quem era o assassino. “Por que ele fez isso?”, e agora Lucília toma fôlego, “Será que achava a expectativa em torno do desenlace de um enredo policial devaneio barato de pequeno-burguês? Será”, e a mão de Emerson foi afundada no vão daquele seio todo aceso, “que na opinião dele os depositários do bem-pensar não são eles mesmos presa às vezes de uma curiosidade comezinha, corriqueira, não se preocupam com ‘quem será o criminoso’? Do alto de sua cátedra de Teoria Literária não imaginam que nossa alma, qualquer alma, é presa desses futricos rasteiros? ” Emerson olho no olho com ela; ela: “Peguei o clássico para ler menina ainda, e de cara me jogam o nome do assassino! Minha vivência de leitura jogada fora! Senti – sinto até hoje – chumbo derretido no peito: ódio!” Emerson, os dedos já no mamilo dela e o hálito passeando pelo pescoço esticado, úmido, entregue: “Eu escrevo outro final para você. Te faço esquecer aquele. Prometo.”&lt;br /&gt;Quem conhece os atributos de Emerson garante que ele é capaz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115083388603442301?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115083388603442301/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115083388603442301&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115083388603442301'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115083388603442301'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/06/chumbo-derretido.html' title='CHUMBO DERRETIDO'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115074064665040665</id><published>2006-06-19T11:10:00.000-07:00</published><updated>2006-06-19T11:10:46.663-07:00</updated><title type='text'>UM NOME NA HISTÓRIA</title><content type='html'>Há muitos séculos Luigi Gambacorta, descendo do navio que o trazia em definitivo a Nápoles – dezoito anos sombreados pelo anonimato do capuz de carrasco, o espírito de aventura hibernado a contragosto finalmente respirando –, sentiu o sol da tarde abrasar-lhe as pálpebras e viu nisso, jovial, a morna claridade da nova fase de sua vida saudando o que viria: não mais a burocracia das execuções. Agora apenas doces sustos, vinho, janelas de quartos puladas às pressas, escrita, escrita, memórias, memórias e memórias. Uma vida a não ser somente registrada mas consagrada pelas páginas de um livro: vários livros. Reconhecimento. Luigi encheu o peito e proclamou, ainda na escada do navio, deixando a fala derramar o pensamento e sentindo já nos dedos o comichão da pena:&lt;br /&gt;- Deixarei um nome na História!&lt;br /&gt;Atrás dele, na escada, o quase anão, que viera a viagem toda encoberto pela manta vermelha que lhe rodeava o corpo várias vezes até o pescoço, falou com voz fina e desanimada o que pareceu sair dos grandes e amarelos olhos – a única parte visível do rosto:&lt;br /&gt;- O nome de teu assassino, por exemplo?&lt;br /&gt;Disse como quem também pensasse alto e foi-se, sumiu; mais um no sai-e-chega do cais. As soltas palavras desceram ao peito de Luigi, fizeram dali cativeiro, como se cochichassem nervosas em um calabouço à espera da hora final.&lt;br /&gt;Por via das dúvidas Luigi permaneceu mais um tempo – meses, estações, décadas – no ofício de justiceiro público. Morreu na cama; filhos, noras e netos a pranteá-lo com inegável sinceridade.&lt;br /&gt;Se no dia do desembarque Luigi conjeturasse com um pouco mais de espírito literário teria inferido que, ficando o nome do assassino registrado na História, o assassinado haveria de ser, em princípio, mais famoso ainda. Mas não adiantava. A índole de Luigi não trazia o tino para aventuras: era, relutantemente, um algoz nato.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115074064665040665?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115074064665040665/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115074064665040665&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115074064665040665'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115074064665040665'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/06/um-nome-na-histria.html' title='UM NOME NA HISTÓRIA'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115054234625813523</id><published>2006-06-17T04:05:00.000-07:00</published><updated>2006-06-17T04:08:28.190-07:00</updated><title type='text'>ESTERILIDADE</title><content type='html'>O autor Nereu Mott é incisivo: escritor estéril assumido. Não no que se refere à produtividade da obra, mas no sentido de parir personas literárias. “Já tem personagem demais no mundo. Chega. Além disso, não tenho vocação para gerar. Eu seria um mantenedor irresponsável. Veja, por exemplo, o que Thomas Mann fez com Hans Castorp, abandonando-o sem mais nem aquela, em meio às trincheiras da Primeira Guerra, inteiramente desamparado", observa, entre cauteloso e emocionado. "Talvez, mais para a frente, eu adote: tome emprestado algum personagem alheio e proceda a uma releitura conceitual. Talvez.” Em uma ocasião, durante a feitura de um de seus ensaios, quase foi dado à luz um personagem que viria a consistir no amálgama de três ou quatro personalidades reais abordadas no texto. Mas não passou de cinco linhas, deletadas de imediato. “Aborto espontâneo”, sentencia Nereu, meio macambúzio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115054234625813523?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115054234625813523/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115054234625813523&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115054234625813523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115054234625813523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/06/esterilidade.html' title='ESTERILIDADE'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-29809316.post-115046313213250007</id><published>2006-06-16T06:04:00.000-07:00</published><updated>2006-06-28T14:39:27.146-07:00</updated><title type='text'>TELEOFOBIA</title><content type='html'>Descobri: padeço de teleofobia. É, procurei nos dicionários, aprendi grego clássico, me inspirei nos ares micênicos para poder exercer com legitimidade este pânico que me acomete desde que fui criado. Tanatofobia, dirá você? Não, meu caro. Isso está muito acima e além de minhas posses intelectuais. Não penso desse jeito. Você pode ser tanatofóbico, pode achar uma crueldade ver todo o apanhado de sentimentos, acúmulo material, amores e ambições ser desligado assim num clique, quando você morrer – vá lá, pode ser uma injustiça mesmo, quem sou eu para julgar? Acontece que você é de carne, osso, sangue e fluidos, você é humanamente imperfeito, você diz impropriedades que não vêm ao caso, é natural que você se apavore com o fim iminente. Acontece, meu caro, que eu sou diferente: não passo de personagem. Não arrasto o fardo da existência física, sou uma &lt;em&gt;dramatis persona&lt;/em&gt;, não nasci, fui criado. Por isso o &lt;em&gt;teleos&lt;/em&gt;, o fim, é que me angustia. Não posso sequer pensar no momento em que este filho da puta que me engendrou levianamente porá um ponto final nesta escrita e me fará calar para sempre. Isto sim é injustiça – porque não pedi para ser criado, e agora me recuso a abrir mão da existência –, portanto lutarei até com minhas mais remotas forças para protestar contra esta sentença de morte arbitrária que é o ponto final, para não deixar que ela aconteça,&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;?alt=rss&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/29809316-115046313213250007?l=blogdebolso.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdebolso.blogspot.com/feeds/115046313213250007/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=29809316&amp;postID=115046313213250007&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115046313213250007'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/29809316/posts/default/115046313213250007'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdebolso.blogspot.com/2006/06/teleofobia.html' title='TELEOFOBIA'/><author><name>Nelson Moraes</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='26' height='32' src='http://bp0.blogger.com/_Yb6_ekMB-WU/R6sEeZzy86I/AAAAAAAAAAM/VKqrYgwCUds/S220/Cabe%C3%A7a+Almirante.GIF'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
